Segunda-feira, 3 de Maio de 2004

O Seixo branco

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“Para fazer qualquer coisa!”
Foi a recomendação da criança que, com uma expressão séria no olhar e um ar quase solene abriu a pequena mão estendendo para mim o inesperado presente: - um seixo branco, rolado e macio, por certo talhado e burilado ao longo dos tempos pelo movimento de mil ondas e marés.
Com ternura e respeito ( que nunca é demais o respeito que se deve a qualquer criança), agradeci a prenda que ainda hoje conservo, e vão passados mais de trinta anos.
Mas, o que espera uma criança de nós?
O que espera? – é a pergunta que permanece.
- O que espera quando a beleza de um simples calhau lhe toca a sensibilidade ao ponto de acreditar que umas mãos maiores do que as suas possam gerar , com tal beleza, um milagre maior!
Que crédito depositam os “pequenos”, nas virtudes dos “grandes” para confiadamente recomendarem e esperarem que aconteça aquilo em que acreditam, ou que desejam poder vir a acontecer!
Será que merecemos tais créditos? – Será?
Seremos realmente capazes de fazer “esses” milagres?
Se nos olham com confiada esperança, uns olhos de criança, o que espera a Vida de nós?
O segredo, a resposta, consistirá em descobrir quem somos, e como somos, e crer que esse segredo, talvez consista apenas, em aceitar que podemos corresponder ás melhores expectativas que outros depositam em nós ...
E, se nos apraz acreditar nas boas possibilidades que olhos alheios nos oferecem, talvez isso nos crie – também - o dever de não repudiar – linearmente - a ideia do mal que, também, outros admitam possamos causar...
É que, às vezes, quem olha à distância, consegue uma objectividade que se escapa a quem de olhar tanto de perto se encandeia e quase cega.
Um seixo branco, para fazer qualquer coisa...
Que coisa mais fazer com ele do que pensar, não sei.
Também a Vida nos é dada em branco para fazer qualquer coisa...
O maior receio, o maior medo, é fazer com ela, o que se pode fazer com qualquer belo seixo branco, guardá-lo, preservá-lo, conservá-lo e olhá-lo de vez em quando a pensar no que se poderia ter feito com ele, para que poderia ter servido, ou, se simplesmente, poderia ter servido para qualquer coisa, que afinal, não chegou a acontecer...


Maria José Rijo

publicado por xanubina às 16:25
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