Quinta-feira, 15 de Abril de 2004

Faz de conta


É indiscutível que somos animais de hábitos.
Na minha memória está tão arreigado o hábito de aliar ao som da chinfrineira dos altifalantes a promessa da visita do Circo, que antes de tomar consciência do que nos querem impingir, em altos berros, os carros de propaganda que, de rua em rua, de beco em beco, de porta em porta nos “vendem o seu peixe”, antes disso, frente ao despropósito do alarido, canta- -me no coração a lembrança das alegrias e deslumbramentos que os espectáculos circenses com a bicharada, os palhaços ricos que me intimidavam, e os pobres cujas desastradas proezas me fascinavam, sempre me ofereciam nos meus tempos de criança...
Assim que , só depois da íntima evocação, venha o acordar de consciência que nos faz descobrir a origem dos sons, identificar o assunto, pensar e fazer conjecturas...
Segue-se, então o encolher de ombros, o sorriso, o esquecimento ou o despertar de algum interesse.
Ainda há bem pouco tempo foi assim.
Logo, logo, todo aquele carnaval foi caindo em cesto roto, mas a insistência frenética, a pouco e pouco, aguçou a curiosidade e, vá de tentar, cada qual, entender a causa da barafunda, que, se não fora o “pregão”, para a maior parte passaria em brancas nuvens.
Uma vez postos, quase à força, na peugada dos vestígios, todos pensam de acordo com os ditames da sua cachimónia, e, como é lógico, dos factos e pessoas que conhecem!
Fica-se alerta e ouvem-se nas rádios os “edificantes” improvisos.
Pois é!
Mas, paremos por aqui.
Quem recorda os velhos Circos da sua infância, fatalmente recorda fábulas e contos.
Lindas algumas. Horripilantes outras.
Terrífica a fala do lobo que arreganhando a voraz dentuça, disse ao cordeiro: - se não foste tu que sujaste a minha água, foi o teu pai que é mais velho.
E fez imperar, um silêncio de morte.
Daí que, faz de conta, que nada aconteceu.
Vitória, vitória, acabou-se a história!
E, a esta hora todos lá estão comendo pão com melão e deram-me um prato de lentilhas que à luz do sol se transformaram em mentiras.
Alvíssaras para mim que este conto chegou ao seu fim!



Maria José Rijo



 
publicado por xanubina às 03:18
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3 comentários:
De Anónimo a 15 de Abril de 2004 às 04:44
É uma história bem escrita ... já a tinha lido ... mas reli com gosto ... Espero que a tua mãe esteja melhor ;-))) ...beijos***Lótus
(http://lotus1.blogs.sapo.pt)
(mailto:lotus__@msn.com)


De Maria José Rijo a 27 de Fevereiro de 2007 às 22:28
Muitos Parebens.
Gosto muito da forma como escreve esta escritora e poetisa.
Gostei mt do teu blog.
www.paula-travelho.blogs.sapo.pt
www.valkiria-na-bruma.blogs.sapo.pt


De valkiria-na-bruma a 27 de Fevereiro de 2007 às 22:33
Parebens pelo teu blog, que adorei.
Beijinhos


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