Quinta-feira, 4 de Março de 2004

Diário de uma resistente-Ser Bom

hippies.bmp


 


 


Aqui há uns anos (gostaria de pensar que não foram muitos mas,  bem contados, devem ser aí uns vinte e...), na altura em que todos frequentávamos liceus e faculdades, talvez porque o mundo tinha menos coisas para nos distrair, a verdade é que falávamos muito mais.


Sentíamo-nos heróicos herdeiros da geração dos anos sessenta e muito conscientes da responsabilidade que nos cabia.


Era uma herança pesada e que mexia com muita coisa: pacífica por natureza, ela trazia em si o gérmen da revolta, o «não» definitivo disfarçado em «love, flowers and music».


Não há autoridade paternal, aos limites sufocantes da família, à rotina, à convenção, à prisão dos princípios instituídos.


Não às regras que ditavam como vestíamos, como falávamos, como nos comunicávamos.


Não há religião que nos ordenava o que não aceitávamos, ao ensino subserviente e deformado, á autoridade prepotente, ao conceito de Nação, que não nos deixava ser todos irmãos no amor.


Mas esta maneira de estar tinha também os seus sins.


Sim à solidariedade, ao amor, à liberdade.


Sim à alegria , à música, à natureza.


Sim a tudo o que era suficientemente louco, suficientemente longuínquo e difícil, para nos arrastar para longe da pequenez, do mesquinho, da autocomiseração.


Lembro-me de um enorme cartaz de um leproso com os dizeres: «Chorava por não ter sapatos até ver o meu vizinho sem pés».


Esta e outras frases perseguiam-nos como guiões, como regras absolutas e indiscutíveis. Perto de nós, havia sempre alguém mais pobre, mais infeliz, mais despojado, que era urgente ajudar. Não em nome de uma qualquer caridade acomodatícia e compensadora, mas porque todos fazíamos parte de um conjunto em que cada membro era responsável por todos os outros. Almada escreveu: «Quando nasci, já estavam escritas todas as palavras que haviam de salvar a humanidade. Só faltava uma coisa: salvar a humanidade».


Era esse o nosso papel, essa a nossa herança. Revolucionários imbuídos de amor, sentíamo-nos fortes e capazes de a realizar. E éramos bons. Assim. Sem o saber. Porque era essa a nossa luta, ser bons.


 


 Maria F. Blanc


.....(continuará...talvez amanhã!!)


Também podia dizer...não perca amanhã novo capítulo...hoje vou ficar por aqui que já vai demasiado longo...


 


 


Quem assim pensava...hoje anda na casa dos 40...


 

publicado por xanubina às 23:25
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1 comentário:
De Anónimo a 8 de Março de 2004 às 22:43
Julgo que andarão mais pelos 50, 50 e muitos. Os de 40, 40 e alguns (moi, por exemplo) "esticaram" essas heranças até 74 e um pouco depois. E, pela parte que me toca, sem grandes conhecimentos de causa. Ou melhor, quando começavamos a "despertar" para uma maior consciência, deu-se o 25 de Abril.
E agora... tinha de ir ao baú remexer naquelas coisadas todas e hoje estou um bocadito alérgico ao pó. Mas, volto. Jinhooo...
reboot60
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(mailto:bbear1@sapo.pt)


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